sexta-feira, 27 de março de 2015

Moisés - Os Dez Mandamentos

Postado em: "Tempos de Deus", Um ministério de Amor.

sábado, 7 de março de 2015

A visão arminiana sobre a predestinação do mal

Postado em: "Tempos de Deus", Um ministério de Amor.

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É evidente que os arminianos não concordam com a visão calvinista de que Deus determina todos os males da história da humanidade e decreta todos os pecados, todo o sofrimento e todos os crimes que já existiram. E isso por uma simples razão: tal doutrina faria de Deus o autor do pecado e do mal e o tornaria tão desumano quanto o diabo. Se o diabo estivesse no poder, certamente ele só determinaria pecados. E o Deus calvinista leva vantagem sobre o diabo apenas nisso: além de determinar pecados, também determina “coisas boas” de vez em quando.
Antes de mostrarmos a opinião arminiana sobre a posição calvinista, é necessário dizer que nenhum arminiano crê que nenhum sofrimento possa ser infligido por Deus. Deus nunca determinou pecado nenhum, mas, às vezes, o sofrimento (que difere do mal moral[1]) é necessário para o crescimento espiritual dos cristãos e, outras vezes, Deus executa seus juízos sobre os ímpios com algo que inclui sofrimento – o inferno, por exemplo[2].
O problema no calvinismo é que Deus não determina o sofrimento em algumas ocasiões específicas com um fim específico de crescimento espiritual na vida de algum cristão, nem executa seus juízos – que podem incluir sofrimento, como foi no Egito com as dez pragas – senão de forma banal e incondicional, onde todo o mal no mundo nada mais é senão o decreto divino em ação.
No calvinismo, um pedófilo é pedófilo porque Deus determinou que ele seria pedófilo e, portanto, ele não poderia fazer nada para mudar o fato de ser um pedófilo. Foi algo determinado e fixo antes da fundação do mundo, é imutável, não depende em nada da influência humana, não foram as escolhas do indivíduo que levaram Deus a determinar que ele seria um pedófilo, nada no indivíduo fez com que Deus tivesse essa escolha.
Para citar um exemplo prático, suponhamos que uma pessoa livremente decida ser um pedófilo, alicie crianças e estupre indefesos. Deus pode, na visão arminiana, executar seu juízo sobre este pedófilo, seja com a morte ou com algum outro método que ele queira. Mas no calvinismo é Deus que determina que ele seja um pedófilo, é Deus que determina que ele alicie crianças, é Deus que determina que ele estupre indefesos e é Deus que determina que ele sofra um juízo pelos seus maus atos. Que sentido tem o juízo num mundo desses? Nenhum, a não ser por pura diversão.
O juízo só faz sentido caso algo mal tenha sido praticado livremente, e não se tudo é determinado, incluindo a própria ação má. Mas se todas as ações más são juízos de Deus, como cria Calvino, então deveríamos entender que Deus executa seus juízos executando estupro de menores, empregando a tortura e estimulando a pedofilia, já que tudo é determinado por Deus, e todas as ações más que Deus determina são juízos dele. Isso é obviamente abominável e é de pasmar como possa existir cristãos que ainda creem nisso.
E, ainda nas ocasiões em que Deus executa os seus juízos, isso não inclui o pecado. Deus nunca, em hipótese alguma, de nenhum modo concebível, pode determinar uma coisa como um estupro de um infante por um pecado deste infante ou de seus pais. Deus não tem nenhuma parte com o pecado. Quando Deus executa os seus juízos, ele nunca usa um pecado para este fim. Deus não justifica os fins pelos meios. Ele não peca para depois ensinar santidade. Ele não determina todo o pecado que há no mundo para depois dizer para não pecar. Isso é umdecretum horribile.
Foi este ensino calvinista que afastou Armínio e os arminianos do calvinismo, e, de fato, é este mesmo ensino que continua afastando cada vez mais pessoas do calvinismo, e umas das explicações para o fato de que o calvinismo que antes era tão predominante no protestantismo tenha perdido tantos adeptos e hoje seja minoria na comunidade evangélica como um todo.
Ninguém quer servir a um Deus que possa tê-lo predestinado não apenas à perdição, mas também às causas da perdição. Até mesmo um crente que hoje pensa estar salvo e firme na fé pode, na verdade, estar predestinado por Deus a apostatar, a blasfemar e a cometer todos os tipos de pecado e terminar no fogo do inferno. E não há nada que este indivíduo possa fazer para mudar isso. Ele não pode mudar o decreto eterno que Deus fez de forma incondicional, sem qualquer relação com sua presciência ou com atos livres praticados pelo sujeito.
Foi por isso que Armínio expressou que este ensino calvinista é “pior do que o qual nem mesmo o próprio diabo pôde conceber em seu propósito mais maligno”[3]. Ele disse que “a partir destas premissas nós deduzimos que Deus, de fato, peca, que Deus é o único pecador, e que o pecado não é pecado”[4]. Para ele, “esta doutrina é repugnante à natureza de Deus e injuriosa à glória de Deus”[5].
Ele também disse:
“Se esta ‘determinação’ denotar o decreto de Deus pelo qual Ele resolveu que a vontade deveria ser depravada e que o homem deveria cometer pecado, então a consequencia disso é que este Deus é o autor do pecado”[6]
John Wesley foi outro que rejeitou fortemente o determinismo calvinista. Em seu famoso sermão “Graça Livre”, ele disse que iria “mencionar um pouco dessas terríveis blasfêmias contidas nessa horrível doutrina”[7], e Susana Wesley, sua mãe, afirmou que “a doutrina da predestinação, como sustentada pelos rígidos calvinistas, é muito repugnante, e deve ser completamente abominada, porque ela acusa o mais santo Deus de ser o autor do pecado”[8].
David Bentley é ainda mais enfático:
“Ele exige que acreditemos e que amemos um Deus cujos fins bondosos serão realizados não apenas apesar de – mas totalmente por forma de – toda crueldade, cada miséria fortuita, cada catástrofe, cada traição, cada pecado que o mundo já conheceu, ela exige que acreditemos na necessidade espiritual eterna de uma criança morrem do uma morte agonizante de difteria, de uma jovem mãe devastada pelo câncer, de dezenas de milhares de asiáticos engolidos em um instante pelo mar, de milhões assassinados em campos de extermínio e campos de trabalhos forçados e fomes forçadas (e assim por diante). De fato é uma coisa estranha buscar a paz em um universo tornado moralmente inteligível á custo de um Deus tornado moralmente repugnante”[9]
John Miley segue a mesma linha e afirma que, “se for assim, todo mal, físico e moral deve ser atribuído diretamente a Deus. O homem também não pode ter nenhuma agência pessoal ou responsável. Pois o bem e o mal são apenas os súditos passivos de uma providência absoluta. À luz da razão, consciência e Escritura, não existe tal providência sobre o homem”[10]. Ele acrescenta que “uma teoria de providência que obrigatoriamente torna a ação moral impossível ou faz de Deus o agente determinante em todo o mal não pode ter lugar em uma teologia verdadeira”[11].
Laurence Vance assevera:
“Na Bíblia, um homem despedaçou sua concubina em doze partes e a enviou aos termos de Israel (Jz 19.29). Foi por meio de um decreto soberano, eterno? Algumas pessoas queimavam seus filhos no fogo a Moloque e faziam sexo com animais (Lv 18.21-24). Isto aconteceu conforme o conselho determinado de Deus?”[12]
Simão Episcópio, discípulo de Armínio, afirmou:
“Ele jamais decreta ações más para que elas aconteça; nem ele as aprova; nem as ama; nem ele alguma vez já as propriamente outorgou ou as ordenou: muito menos de forma a causá-las; ou as obteve, ou as incitou ou forçou alguém a elas”[13]
Clark Pinnock responde ao determinismo de Feinberg da seguinte maneira:
“Deveria ficar bem claro para o leitor as razões por que o número de calvinistas rigorosos é tão pequeno, relativamente. O calvinismo envolve a pessoa em dificuldades agonizantes de primeira grandeza. Faz com que Deus se transforme num tipo de terrorista que vai por aí distribuindo tortura e desastre, e até mesmo exigindo que as pessoas façam coisas que a Bíblia diz que Deus aborrece. Há alguns anos, um louco assassinou vinte pessoas numa das casas de lanches McDonald, perto de San Diego. De acordo com Feinberg, embora Deus não goste de coisas desse tipo, Ele a decretou assim mesmo. Não seria mais simples dizer que Deus não gosta disso, e deixar as coisas envoltas em mistério? Feinberg diz que a exigüidade do espaço não lhe permite dar uma resposta completa, e pede-nos que consultemos seu livro. Ele terá de desculpar-me por eu pensar que isso é desculpa esfarrapada, e que não importa a extensão de seu livro, não há maneira de limpar a reputação de Deus, num caso assim. Não é preciso a pessoa pensar muito para responder por que muita gente torna-se descrente, ou ateu, ao defrontar-se com tal teologia. Um Deus assim teria muita coisa por que responder”[14]
Norman Geisler também diz:
“O primeiro problema é que, pela lógica, tal conceito torna Deus a causa eficiente de todas as decisões livres, inclusive as más ações. Se os seres humanos, agentes individuais, não são as causas eficientes reais do mal, é Deus, então, quem pratica os raptos, os assassinatos, e outras crueldades, usando seres humanos. Tal conceito é biblicamente herético, e moralmente repugnante”[15]
O filósofo arminiano Jerry Walls também sustenta que “é impensável que tanto mal abunde se Deus determinou todas as escolhas humanas”[16]. Roger Olson diz que esse ensino calvinista “torna difícil enxergar a diferença entre Deus e o diabo”[17], e que “Deus é, desse modo, retratado, no melhor cenário, como moralmente ambíguo, e, no pior cenário, um monstro moral”[18]. Ele ainda discorre sobre o argumento calvinista de que todas as desgraças do mundo Deus determina por uma “razão soberana”, quando ele conta sobre uma experiência que teve em um hospital:
“No corredor, pude ouvir uma criança pequena, talvez de dois ou três anos de idade, gritando em agonia entre tosses horríveis e ânsias de vômito. A pobre criança estava sendo segurada por alguém que falava de maneira calma e suave com ela enquanto ela tossia incontrolavelmente e então gritava mais um pouco. Não era de forma alguma uma birra normal ou costumeira de crianças ou um grito de desconforto. Jamais ouvi algo igual àquilo antes e desde aquele evento, até mesmo na TV. Meu pensamento constante era: ‘Por que alguém não faz algo para aliviar o sofrimento daquela criança?’ Eu queria correr pelo corredor e ver se poderia ajudar, mas posso dizer que havia muitas pessoas ao redor daquela criança naquela sala. O que eu ouvi me assombra até hoje. Parece que a criança estava possivelmente morrendo uma morte agonizante. Se o calvinismo for verdadeiro, Deus não apenas planejou e ordenou, mas também tornou certo aquele sofrimento horrível daquela pequena criança. Ele não apenas planejou e ordenou e tornou certa a doença da criança, mas também a agonia resultante”[19]
Ele também diz que, “embora Deus tenha o direito e o poder de fazer o que lhe aprouver com qualquer criatura, o caráter de Deus como amor e justiça supremos tornam certos atos de Deus inconcebíveis. Entre estes está a preordenação do pecado e do mal”[20]. O comentário mais polêmico de Olson, que causou e continua causando muita revolta dos calvinistas, foi quando ele disse que, se lhe fosse revelado que o Deus calvinista era o verdadeiro, ele não o adoraria:
“Um dia, no fim de uma sessão de aula sobre as doutrinas da soberania de Deus do calvinismo, me fez uma pergunta que eu tive que parar de levar em consideração. Ele perguntou: ‘se fosse revelado a você de uma forma que você não pudesse questionar ou negar que o Deus verdadeiro na verdade é como o calvinismo diz e os preceitos como o calvinismo afirma você ainda o adoraria?’ Eu sabia que a única resposta possível sem um momento de reflexão, embora eu soubesse que isto chocaria muitas pessoas. Eu disse não, que eu não o adoraria porque eu não podia. Tal Deus seria um monstro moral. É claro, eu tenho consciência de que os calvinistas não pensam que os seus pontos de vista da soberania de Deus fazem dele um monstro moral, mas eu posso simplesmente concluir que eles não têm pensado nisso através de sua conclusão lógica ou mesmo levado suficientemente a sério as coisas que dizem sobre Deus e o mal e o sofrimento inocente no mundo”[21]
Claro, não demorou muito para que os calvinistas reagissem ferozmente contra Olson, chamando-o inclusive de “blasfemo”. Mas ele não afirmou em momento nenhum que ele não adoraria a Deus (ao verdadeiro Deus), e sim que não adoraria a um falso deus, a um deus criado pelos deterministas, um deus que determina todas as tragédias, todo o mal, todo o pecado e todo o sofrimento do mundo. Este não é o Deus verdadeiro, mas um pintado pelos deterministas.
Tal como dificilmente um cristão diria que adoraria Alá (o Deus dos muçulmanos) caso lhe fosse revelado que este é o Deus verdadeiro e que ele se agrada de ataques suicidas de homens-bomba em hospitais e em escolas matando milhares de inocentes, é igualmente difícil tolerar a ideia de um deus que não apenas se agrada disso, mas que determina torna certa tais ações, sendo os homens meros instrumentos nas mãos deste deus. Osama Bin Laden não seria um terrorista, seria meramente um instrumento usado por aquele que realmente pregaria o terror, aquele que usa os terroristas para estes fins.
Um deus que diz para o homem não pecar, mas ordena determina que ele peque e não há nada que o homem possa fazer para evitar este decretum horribile. Um deus que usa terroristas para destruir hospitais, para matar inocentes, para derrubar prédios. Um deus sádico e tirano, pronto para determinar um pecado e punir o pecador pelo pecado já pré-determinado que ele deveria fazer. Com certeza, este não é o Deus da Bíblia. Como disse o poeta protestante John Milton (1608-1674), “posso ir para o inferno, mas um Deus como esse jamais terá o meu respeito”.

  Textos Bíblicos
Quando eu vejo um calvinista se esforçando o máximo que pode para provar biblicamente que Deus determina o pecado, imediatamente penso o mesmo que John Wesley:
“Você representa Deus como pior do que o diabo; mais falso, mais cruel, mais injusto. Mas você diz que você irá provar isso, através das Escrituras. Espere! O que você irá provar através das Escrituras? Que Deus é pior do que o diabo? Não pode ser! O que quer que essas Escrituras provem, elas nunca irão provar isso; o que quer que o seu verdadeiro significado seja, esse não será seu verdadeiro significado”[22]
De fato, chega a soar ridículo e até mesmo patético que tenhamos que provar pelas Escrituras que Deus não determina o pecado. É tão absurdo quanto ter que provar biblicamente que Deus existe, ou que Jesus é o salvador, ou qualquer outra verdade autoevidente da Bíblia. A simples alegação de que a Bíblia afirma que Deus determina o pecado é uma blasfema contra a Bíblia, e ainda mais contra Deus. Como disse Wesley, seja lá o que for que as Escrituras provam, elas nunca irão provar isso.
Um mundo em que Deus é pior que o diabo, pois todos os atos do diabo na verdade são determinados por Deus, é um mundo que deveria nos encher de pavor e de duvidarmos se o amor que a Bíblia tanto atribui a Deus é mesmo verdadeiro. No calvinismo, até mesmo o ódio que o diabo tem contra Deus provém de Deus, pois eles não admitem nenhum pensamento ou evento que seja autocausado.
Mas para que nenhum calvinista alegue que a Bíblia ensina esta doutrina terrível que faz de Deus um ser pior que o diabo, iremos provar pelas Escrituras o básico: nenhum pecado é determinado por Deus. Para começar, João nos diz:
“Vocês sabem que ele se manifestou para tirar os nossos pecados, e nele não há pecado” (1ª João 3:5)
Seria estranho, senão cômico, que Jesus tenha se manifestado para tirar os nossos pecados que ele mesmo colocou. Deus determina que nós pequemos e depois envia o Seu Filho para tirar esses pecados, mas continua determinando pecados novos. Isso é absurdo, obviamente. De Deus não há nenhuma determinação maligna, ou senão João não teria dito:
“Esta é a mensagem que dele ouvimos e transmitimos a vocês: Deus é luz; nele não há treva alguma” (1ª João 1:5)
De Deus só provém luz, e não trevas. As trevas são do próprio coração corrupto do homem, são autocausadaspor ele. Uma prova clara na Bíblia de que o pecado – que João identifica como sendo a cobiça da carne, dos olhos e a ostentação de bens – não provém de Deus (i.e, não é determinado por Ele), e sim do próprio homem, está em 1ª João 2:16, onde ele diz:
“Pois tudo o que há no mundo – a cobiça da carne, a cobiça dos olhos e a ostentação dos bens – não provém do Pai, mas do mundo” (1ª João 2:16)
Se o pecado não provém do Pai, então não pode ser causado ou determinado por Ele. O pecado, se não provém de Deus, só pode ser autocausado pelo próprio homem, e não por algum agente externo. É isso o que Tiago também diz de forma clara:
De onde vêm as guerras e contendas que há entre vocês? Não vêm das paixões que guerreiam dentro de vocês?” (Tiago 4:1)
As guerras e as contendas, para Tiago, não vem de Deus, mas das “paixões que guerreiam dentro de vocês”, isto é, da carne, da natureza do próprio ser humano. Para crer que tudo vêm de Deus – incluindo o pecado – teríamos que considerar João e Tiago dois mentirosos, pois João diz que o pecado não provém de Deus e Tiago diz que o pecado vem do próprio homem. Ou eles não entendiam bem o determinismo calvinista, ou eles não criam nisso.
Tiago é ainda mais explícito sobre isso quando diz:
“Quando alguém for tentado, jamais deverá dizer: ‘Estou sendo tentado por Deus’. Pois Deus não pode ser tentado pelo mal, e a ninguém tenta. Cada um, porém, é tentado pela própria cobiça, sendo por esta arrastado e seduzido” (Tiago 1:13-14)
Além de dizer que o pecado provém de si mesmo e não de Deus (i.e, autocausado, e não externamente determinado), ele ainda diz que Deus a ninguém tenta. O calvinista tem que fazer um verdadeiro malabarismo mental neste texto para conseguir conciliá-lo à ideia de que Tiago cria que Deus não tenta ninguém, masdetermina todas as tentações e todos os pecados.
Isso é simplesmente impossível, visto que “tentar” é menos que “determinar”. Alguém que é somente “tentado” ao pecado não necessariamente cai nele. Jesus foi tentado, mas não caiu. Mas a determinação vai muito além disso: a pessoa simplesmente não pode deixar de pecar, se Deus determinou que ela pecasse. Então, lá no fundo, o que o “Tiago calvinista” estava dizendo era isso:
“Quando alguém for tentado, jamais deverá dizer: ‘Estou sendo tentado por Deus’. Pois ele não tenta, eledetermina que se peque”
De fato, tentar ao pecado é simplesmente inclinar alguém ao pecado, mas no calvinismo Deus não apenas tenta(inclina a vontade do homem para onde ele quer), mas também determinaordena e decreta que o homem caia nesse pecado, o que é muito pior. A única forma de negar isso seria afirmando que os pecados do crente são autocausados, sem qualquer determinismo externo, mas isso seria o fim do determinismo, e, consequentemente, o fim do calvinismo[23].
O Antigo Testamento também está cheio de citações que nos mostram que Deus não determina nenhum pecado. Em Jeremias, Deus nos fala sobre alguns pecados cometidos pelo povo israelita, e diz:
“Construíram nos montes os altares dedicados a Baal, para queimarem os seus filhos como holocaustos oferecidos a Baal, coisa que não ordenei, da qual nunca falei nem jamais me veio à mente” (Jeremias 19:5)
Deus diz que aqueles pecados nunca foram ordenados por ele, nunca foram ditos por ele e nunca vieram à mente dele. Ou Deus é bipolar e falso, que ordena e determina o pecado antes da fundação do mundo e depois de forma dissimulada diz que nunca ordenou aquilo, ou o determinismo é mais falso que nota de três reais.
Na verdade, se o determinismo fosse verdadeiro, Deus não teria qualquer razão para reclamar com os israelitas naquela ocasião. Afinal, eles estavam apenas cumprindo o decreto divino. Eles não poderiam fazer nada para deixarem de cumpri-lo. Deus determinou antes da fundação do mundo que eles deveriam queimar seus filhos como holocausto aos deuses pagãos, eles não tinham como mudar esse decreto, foram lá e queimaram, e fim de papo.
Como que Deus pode colocar a culpa de um ato em um ser humano que estava apenas cumprindo ordens contra as quais ele não poderia agir de forma diferente, e, pior ainda, ordens vindas do próprio Deus? E como Deus poderia, honestamente, dizer que não ordenou aquilo, se na verdade ele havia ordenado desde antes da fundação do mundo? Como aquilo “nunca lhe veio à mente” se foi exatamente o que ele incluiu em seu decreto, que fixou e determinou de forma incondicional e imutável, sendo que os israelitas em questão estavam apenas cumprindo o que Deus ordenou desde sempre?
Deus seria, na melhor das hipóteses, dissimulado ao dizer que jamais lhe veio à mente ordenar um pecado que foi ordenado antes dos próprios israelitas pecarem. Não há forma satisfatória de conciliar uma teologia que diz que foi Deus quem ordenou em seu decreto que os pais queimariam seus filhos em sacrifício a Baal com este texto, que diz tão claramente o contrário. É preciso, além de um senso de crueldade apurado e de um senso moral coibido, um verdadeiro assassinato da interpretação bíblica para dizer que foi Deus quem de fato ordenou todo esse morticínio.
Outro texto que nos mostra que Deus não determina pecados é Habacuque 1:13, que diz:
“Teus olhos são tão puros, que não suportam ver o mal; não podes tolerar a maldade. Por que toleras então esses perversos? Por que ficas calado enquanto os ímpios engolem os que são mais justos do que eles?” (Habacuque 1:13)
Deus é tão puro que não suporta ver o mal que ele mesmo decretou? Ele não tolera a maldade que ele mesmo determinou? O que alguém em sã consciência determina livremente sem qualquer coerção externa e não pode tolerar nem suportar sua própria determinação livre? É natural que Deus não tolere nem suporte algo que não foi determinado por ele, mas que seja um mau uso do livre-arbítrio dos próprios seres humanos, mas é completamente absurdo que Deus tenha livremente determinado algo (sem qualquer influência externa ou coerção que o levasse a tomar essas decisões) que ele depois não tolere e nem suporte.
Os calvinistas também teriam que mudar o conceito bíblico de que todas as coisas que Deus faz é bom. Se Deus faz o mal ou o determina, então nem tudo o que Deus faz é bom, ou o próprio mal não existe, ou o mal é bom. Os calvinistas, em suma maioria, creem que o mal existe e que o mal é mau e o bem é bom, então tem que assumir a consequencia lógica de que nem tudo o que Deus faz é bom, contradizendo diversos textos bíblicos (Gn.1:31; Ec.7:29). À luz de Habacuque 1:13, teriam que inferir também que Deus não apenas determina coisas más, mas que também não suporta nem tolera as coisas más que ele determina!
Outro exemplo claro de que não é Deus quem determinou a Queda e o pecado está em Eclesiastes 7:29, que diz:
“Eis aqui, o que tão-somente achei: que Deus fez ao homem reto, porém ele se meteu em muitas astúcias!” (Eclesiastes 7:29)
Ao invés de o autor inspirado dizer que Deus fez o homem reto e depois fez com que ele caísse (como creem os calvinistas), ele diz que Deus fez o homem reto (sem pecado) e o próprio homem que causou sua própria Queda, “se metendo em muitas astúcias”. Assim, vemos Deus determinando a criação de um Adão íntegro, e Adão, por sua própria concupiscência através de um pecado autocausado, se desvia. Deus determina a primeira parte (da retidão); o homem se desvia por conta própria.
Também teriam que negar o Salmo 145, que diz:
“Justo é o Senhor em todos os seus caminhos, e santo em todas as suas obras” (Salmos 145:17)
O Senhor é santo em todas as suas obras. Mas lembre-se que os calvinistas dizem que Deus não determina apenas coisas boas, mas coisas más também – incluindo o pecado. Consequentemente, teriam que acreditar que a má determinação é um bom caminho e que o pecado é uma boa obra, se Deus determina o pecado e mesmo assim todas as suas obras são santas, e não “algumas”. Isso mudaria todo o nosso conceito de “pecado”, e nos traria para mais perto dos conceitos humanistas seculares de relativismo, onde tanto o pecado quanto o mal nada mais são que ilusões – o mesmo que a maioria dos calvinistas creem em relação ao livre-arbítrio[24].
Eliú também diz:
“Portanto vós, homens de entendimento, escutai-me: Longe de Deus esteja o praticar a maldade e do Todo-Poderoso o cometer a perversidade!” (Jó 34.10)
Se Eliú fosse determinista, ele teria que crer que Deus não pratica a maldade, apenas a determina e a torna irrevogável, da mesma forma que não comete a perversidade, mas ordena a perversidade por meio de um decreto imutável antes da fundação do mundo. Deus não “pratica” nem “comete”, mas faz coisas muito piores, pois quem “pratica” e “comete” está apenas cumprindo aquilo que foi determinado por ele, não podendo nem mesmo agir de forma contrária!
O Salmo 5:4 diz claramente que “tu não és um Deus que tenha prazer na iniqüidade, nem contigo habitará o mal” (Sl.5:4). Isso foi o que levou alguns calvinistas a entrarem em paradoxos e confusões mentais ao ponto de empregarem linguagem contraditória tal como: “Deus deseja o pecado indesejosamente”, pois a Bíblia diz claramente que Deus não tem prazer no pecado, mas os calvinistas creem que o pecado é determinado por Deus. Portanto, os calvinistas são levados a crer que Deus determina coisas que não tem vontade, que determina o mal e o pecado mesmo não gostando do mal e do pecado, que não tem prazer na iniquidade, mas a decreta assim mesmo.
Por fim, ficaria difícil entender bem o que os autores bíblicos queriam realmente dizer quando exclamavam que “Santo, Santo, Santo é o Senhor dos Exércitos; e toda a terra está cheia da sua glória” (Is.6:3), sendo que “aquele que sabe que deve fazer o bem e não o faz, comete pecado” (Tg.4:17), e Deus, sabendo que o certo é fazer o bem, determina o contrário. É como disse Limborch: “O que pode ser mais desonroso, o que pode ser mais indigno de Deus do que torná-lo o autor do pecado, que é tão extremamente inconsistente com sua própria santidade?”[25]
Alguns contestam tudo isso se apegando a um texto bíblico que parece dizer que Deus criou o mal. Trata-se de Isaías 45:7, que diz:
“Eu formo a luz, e crio as trevas; eu faço a paz, e crio o mal; eu, o Senhor, faço todas estas coisas” (Isaías 45:7)
Contudo, o original hebraico possui quatro palavras diferentes para o “mal”, e nem todas elas representam o malmoral. Aqui a palavra hebraica utilizada é ra, que tem como um de seus significados “calamidade”[26]. Essa interpretação é ainda mais reforçada pelo contexto, que traça um contraste entre paz e guerra, e não entre bem e mal. Se a tradução correta fosse por “mal”, o texto estaria contrastando o bem e o mal, e ficaria assim: “eu faço o bem e crio o mal”. Mas ele está em contraste com paz, o que significa que está no contexto de batalha, pois o inverso de paz é guerra.
Norman Geisler e Thomas Howe acrescentam no “Manual Popular de Dúvidas, Enigmas e ‘Contradições’ da Bíblia”:
“Na sua forma temporal, a execução da justiça de Deus às vezes é chamada de ‘mal’, porque parece ser um mal aos que estão sujeitos a ela (cf. Hb 12:11). Entretanto, a palavra hebraica correspondente a ‘mal’ (rá) empregada no texto nem sempre tem o sentido moral. De fato, o contexto mostra que ela deveria ser traduzida como ‘calamidade’ ou ‘desgraça’, como algumas versões o fazem (por exemplo, a BJ). Assim, se diz que Deus é o autor do ‘mal’ neste sentido, mas não no sentido moral”[27]
Assim, a tradução mais correta desse verso é aquela oferecida pela Nova Versão Internacional e por outras versões, que diz:
“Eu formo a luz e crio as trevas, promovo a paz e causo a desgraça; eu, o Senhor, faço todas essas coisas” (Isaías 45:7)
A “desgraça” (NVI) ou “mal” (ARA) não é o mal moral, como o pecado, mas a guerra, em contraste com a paz. A Bíblia não é absolutamente contrária à guerra, contanto que seja por uma boa razão. Se os Aliados não tivessem lutado contra Hitler na Segunda Guerra Mundial, provavelmente o mundo teria sido dominado pelos nazistas e seus planos de exterminar todas as raças exceto a “raça pura” ariana teria sido levado à ação em todo o mundo. Isso é totalmente diferente de dizer que toda guerra é boa, ou de justificar guerras por motivos fúteis como mera conquista territorial ou roubar petróleo do Iraque.
Em resumo, Deus não determina o pecado e o mal moral nunca. Isso macularia a santidade divina e o tornaria um monstro de pior crueldade que o próprio diabo. Nenhum texto bíblico, quando analisado à luz do contexto, ensina o determinismo, e existem inúmeros textos que provam o contrário. Mas iremos abordar estes textos mais adiante, porque agora é importante pensarmos um pouco em que tipo de “amor” que os calvinistas atribuem a Deus.
[1] Sobre a diferença entre o sofrimento e o mal moral, recomendo uma análise no apêndice 2 de meu livro: “As Provas da Existência de Deus”, onde eu abordo o problema do mal.
[2] Como foi mostrado em meu livro “A Verdade sobre o Inferno”, a Bíblia não ensina um tormento eterno dos ímpios, e sim um castigo correspondente aos pecados de cada um (Lc.12:47,48), tendo por fim a morte. Mas isso não muda o fato de que há sofrimento durante o tempo que eles estão ali, ainda que seja um sofrimento justo e não desproporcional.
[3] ARMINIUS, “An Examination of the Theses of Dr. Franciscus Gomarus Respecting Predestination”, Works. v. 3, p. 602.
[4] ARMINIUS, “A Declaration of Sentiments”, Works. v. 1, p. 630.
[5] ARMINIUS, “A Declaration of Sentiments”, Works. v. 1, p. 623, 630.
[6] ARMINIUS, “Nine Questions”, Works. v. 2, p. 65.
[7] WESLEY, John. Graça Livre, XXIII.
[8] Susanna Wesley, citado em A. W. Harrison, Arminianism (Londres: Duckworth, 1937), p. 189.
[9] David Bentley Hart, The Doors of the Sea: Where Was God in the Tsunami? (Grand Rapids: Eerdmans, 2005) p. 99.
[10] MILEY, John. Systematic Theology. 1983, reimpressão. Peabody, Mass.: Hendrickson, 1989, v. 1, p. 330.
[11] MILEY, John. Systematic Theology. 1983, reimpressão. Peabody, Mass.: Hendrickson, 1989, v. 1, p. 329.
[12] VANCE, Laurence M. O outro lado do calvinismo.
[13] EPISCÓPIO, Simão. Confession of Faith of Those Called Arminians. London: Hean e Bible, 1684, p. 110.
[14] PINNOCK, Clark H. Predestinação e Livre-Arbítrio: Quatro perspectivas sobre a soberania de Deus e a liberdade humana. Editora Mundo Cristão: 1989, p. 78.
[15] GEISLER, Norman. Predestinação e Livre-Arbítrio: Quatro perspectivas sobre a soberania de Deus e a liberdade humana. Editora Mundo Cristão: 1989, p. 97.
[16] WALLS, Jerry. “The Free Will Defense, Calvinism, Wesley, and The Goodness of God”, Christian Scholar’s Review, n. 13, v. 1, 1983, p. 28.
[17] OLSON, Roger. Contra o Calvinismo. Editora Reflexão: 2013, p. 35.
[18] OLSON, Roger. Contra o Calvinismo. Editora Reflexão: 2013, p. 35.
[19] OLSON, Roger. Contra o Calvinismo. Editora Reflexão: 2013, p. 139-140.
[20] OLSON, Roger. Teologia Arminiana: Mitos e Realidades. Editora Reflexão: 2013, p. 155.
[21] OLSON, Roger. Contra o Calvinismo. Editora Reflexão: 2013, p. 134.
[22] WESLEY, John. Graça Livre, XVI.
[23] Temos que lembrar mais uma vez que, para Calvino e os calvinistas posteriores, a própria vontade do homem provém de Deus, e não do próprio homem. No calvinismo, não existem atos autocausados, e sim atos causados por um agente externo (Deus), que influencia na vontade do homem, que não tem real opção de escolha senão o que Deus quer que ele escolha. Sendo assim, Deus seria o responsável tanto por tentar (i.e, inclinar a vontade) como também por concretizar (determinar) esse pecado, como resultado da tentação. É algo obviamente completamente oposto ao sentido do texto que Tiago nos passa.
[24] Em Isaías, Deus diz: “Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem mal; que fazem das trevas luz, e da luz trevas; e fazem do amargo doce, e do doce amargo!” (Is.5:20).
[25] LIMBORCH, Philip. A Complete System, or, Bordy of Divinity, trad. William James. London: John Darby, 1713. p. 372.
[26] De acordo com a Concordância de Strong, 7451.
[27] GEISLER, Norman; HOWE, Thomas. Manual popular de dúvidas, enigmas e ‘contradições’ da Bíblia. São Paulo: Editora Mundo Cristão, 1999.
Extraído do livro “Calvinismo X Arminianismo: quem está com a razão?”, Biazoli, cedido pela comunidade de arminianos do Facebook